ARTE URBANA

Hoje, quando ouvimos falar em “arte urbana” lembramos de grafiti. Aliás justa referência desta prática, que surgiu nas cidades modernas, talvez em Nova York nos anos 1970, e vem conquistando interesse das galerias com a presença de muitos artistas vindo das ruas. Mas, arte na rua, pode lembrar também artistas mambembes, saltimbancos surgidos no século XIV na Itália, que paravam suas carroças e, no improviso, criavam novas realidades nos vilarejos por onde passavam. Certamente traziam luz e alegrias.

A arte na rua lembra ainda saraus, teatro, dança, poetas, músicos, malabaristas, estátua viva, palhaços, mágicos, pintores, desenhistas, ventríloquos, mascates, acrobatas, marionetes e até o realejo com o insubstituível papagaio que pinça a sorte nas mensagens escolhidas. Mas, cadê o realejo? Busco na internet e percebo que ele ainda vive, reflito a estranha máquina musical movida à manivela, apoiada em um pé só, que libera timbres próprios enquanto um pequeno animal (macaco ou um papagaio) aprisionado, acorrentado e explorado, escolhe um, entre centenas de pequenos cartões, o texto da sorte de quem pede e claro, paga por isso. Esta reflexão me divide entre a magia dos esquecidos realejos que encantam o público, adultos e crianças, e o sofrimento do macaco ou papagaio humanizado e fora do seu habitat. Posso tentar justificar; o animal é parte da dupla, ou melhor, é também artista do trio (humano/não humano/máquina) saído do imaginário das histórias infantis. Mas cada época tem a sua arte e não vemos mais fotógrafos lambe-lambe, animais nos circos nem o realejo nas ruas.

A palavra “urbana” abrange o que está na cidade, nos domínios da cidade e nas ruas; e a palavra “arte”? Importante sublinhar que a palavra “arte” se apresenta aqui na perspectiva ocidental do que chamam de arte, do que nos ensinam como arte nas escolas e no cotidiano onde transitamos. Existem outras culturas e povos que desejam e produzem beleza por outros critérios fora desta tradição ocidental onde nos encontramos hoje.  Prefiro falar de arte, desde já reconhecendo sua autonomia e independência no modo de fazer acontecer o que chamam de “realidade”. Arte que emancipa uma existência singular onde se manifesta. Quando falo arte urbana, relaciono com a arte que usa, exclusivamente, a rua. Sem esquecer do flaneur –  #walterbenjamin –  o explorador urbano que caminha errante pela cidade e diferente de um morador de rua, nas suas andanças sem rumo, apreende outros sentimentos exclusivos desta ausência de sentido estratégico que estamos habituados quando nos deslocamos, diariamente, pela cidade. São manifestações mais próximas do futuro do que da memória. Arte urbana fixa-se no presente, se opõem às buscas de identidades já passadas e acontece fora dos locais preparados para consumo estético; das galerias, por exemplo, que isolam o mundo exterior e criam um clima de eternidade às obras. Arte urbana exige um funcionamento diferente da galeria, talvez o que funcione na rua não funciona na galeria e vice-versa. É a arte que altera a paisagem, define territórios, reinventa códigos, materializa a vida no presente e, inevitavelmente, esbarra em questões políticas e éticas. Assim, inúmeras reflexões aparecem nas intervenções artísticas nas ruas de uma cidade.

As intervenções artísticas urbanas geram discussões sobre o espaço público, porque a vida organizada, oficial, acontece nos espaços privados. O espaço público quando não está abandonado está repleto de sinalizações, regras, ordens, vigilância e leis que tentam funcionar a vida dentro de uma atmosfera controlada e segura. Estas intervenções artísticas trazem novas formas de relação e rompem com o que já está definido nas codificações e mapeamentos que fazemos do espaço que nos envolve, onde estamos, ou deslocamos sempre num pedaço da cidade dentro dela mesma. A arte urbana mostra uma possibilidade, uma nova cidade com novos horizontes, gerando novos afetos em novas relações sociais num novo ambiente. Estas intervenções podem ser sinais do futuro, manifestações que apontam alguma tendência ou prenúncio para inéditas leituras ambientais e sociais.

Para artistas ou artivistas, a cidade é repleta de ofertas em seus lugares prontos para ressignificações possíveis apenas pela arte. Não são apenas muros ou paredes. Qualquer lugar é potência para a criação na rua, na vontade singular do artista em dizer alguma coisa do seu mundo. Então a cidade é também o encontro de vários mundos que insistem na coexistência do agora. Procurando arte urbana em Cuiabá encontro, por exemplo, artistas da tipografia vernacular, espalhada nos bairros em placas, fachadas, cartazes e muros. Felizmente, esta prática sobrevive na era digital das máquinas de plotagem, que vêm substituindo estes pintores, letristas e cartazistas. Passando pelo Jardim Vitória, por exemplo, percebo a riqueza desta manifestação popular de resistência, dividindo também territórios entre estes agentes que alteram a paisagem da cidade.

Suzana Guimarães lembra, no livro “Arte na Rua – o imperativo da natureza”, a origem das manifestações artística em Cuiabá e aponta a iniciativa da artista Dalva de Barros que em 1966 fez uma exposição na vitrine de uma loja de tecidos no centro da cidade. Mas só a partir de 1983 que a pintura se instalou nas ruas quando cerca de 50 artistas, liderados por Gervane de Paula, Adir Sodré e Dalva, participaram da exposição “Cuiabá: um Grande Ateliê”, evento itinerante que estreou no terminal rodoviário. A intenção era aproximar a produção artística das classes populares e seguiam um movimento nacional. Gervane e Adir participaram em São Paulo das edições “Arte na Rua 1” e “Arte na Rua 2” (1983/84) no MAC/USP. Estes artistas criticaram, e ainda criticam, a arte/sistema desenhada por Anne Caucquelin no livro “Arte Contemporânea –  Uma Introdução”, na perspectiva do mercado legitimado por agentes de um sistema neste esquema moderno vigente numa extensa lista de atores, ou peças, necessárias ao funcionamento, na imposição do que deve ser consumido. Ver esta arte/sistema, um composto em constante transformação, e auto legitimado, uma organização formada por críticos, curadores, galeristas, museus, colecionadores, conservadores, restauradores, leiloeiros, marchands, empresários, mídias, mecenatos, estado, indústria, produtores, técnicos, artistas e, por último, a obra de arte. Se falamos em consumo de arte, parte deste sistema usa artistas e extraem suas singularidades em favor da manutenção deste sistema no comando dos gostos e na formação de consumidores. O consumo de conteúdo ou de dados, hoje é muito maior. O que devemos escolher consumir diante da crescente, inevitável, oferta que deseja nossa contemplação? Quanto aceitamos pagar por conteúdo jornalístico ou de entretenimento ? Quanto aceito pagar numa obra de arte ?

 

Mas, e o grafiti?

O grafiti parece ser a prática mais sedutora aos novos, e inquietos, artistas na busca de expressão. Geralmente acompanham movimentos culturais próximos; por exemplo, quando ouvimos a expressão “arte urbana” ou “streetart” logo aparece o universo #streetart #pixo #graffiti #stencil #sticker #lambelambe #rap #hiphop  #skate… e tudo vai mudando nas manobras, linhas e tipografias ou discursos, mas ainda percebo uma estética hegemônica nesta linguagem pictórica urbana: a norte-americana. O grafiti não consegue se separar do caráter político transgressor que o gerou porque reflete várias discussões sociais mas deve questionar e buscar algo na contramão desta hegemonia que também age na arte urbana: a colonização. Percebo poucos artistas refletindo esta corrente da vida colonizada na cidade, onde vive a maioria da população, onde permite ser um lugar para poéticas exclusivamente urbanas, em engajamentos individuais e coletivos que pedem transversalidades entre artistas, urbanistas, arquitetos e até outras disciplinas contemporâneas; políticas, científicas, esportivas, humanas e ecológicas. O grafiti traz novos entendimentos nesta relação estética com a cidade. A transversalidade da arte contemporânea é fundamental não só nas cidades mas em qualquer lugar que se reinvente porque sempre vai dialogar com questões sociais no presente.  Para entender, um pouco, a vida, é preciso vivê-la. Então é preciso que o grafiti se manifeste cada vez mais para que possa se descobrir na próxima experiência da criação urbana no contexto atual da sua época.

E qual a nossa época? É a era da impermanência, ou seja, da velocidade alterada dos acontecimentos sobrepostos de um mundo colonizado, dominado, tensionado por linhas de poder que se confrontam incessantes, que orientam e criam seres humanos, distantes da natureza e preparados ao discurso do consumo (onde tudo se move para construir a figura do consumidor e seus desejos). Enquanto isso, as mentalidades coletivas mudam, e mudam cada vez mais rápido, evoluímos para um estado de incompatibilidade com a vida na degradação do ambiente, nas explosivas relações sociais, na promoção do ódio e na produção de subjetividades nocivas à nossa singularidade necessária na experiência de viver, principalmente, na arte que hoje se espalha em novas e contínuas práticas, também no espaço cibernético conduzidas por hashtags indeléveis. Então na experiência artística deste mundo acelerado, compartilhado, logado e sob vigilância, a criatividade é atitude com a própria existência, enquanto é obrigação do artista trazer o novo, inventar o que antes não existia, seja em qualquer matéria e espaço. Se faltam sombras na cidade chamada de verde, então imagino a cidade cheia de toboáguas em suas ladeiras ou até nos espaços do VLT.

 

Luís Segadas

Maio 2017