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Miguel Bezerra

Imerso em circuitos que fazem circular objetos fechados, fachadas bem delineadas, reais contornados, modelados e funcionalizados, entidades que operam segundo lógicas auto referendadas e auto legitimadas, eis que surge a figura do catador, ser onde resiste uma estranheza capaz de refigurar, reavaliar e recompor esses objetos inertes que se movimentam como sonâmbulos, obedecendo a uma gramática que se julgava inquestionável, inviolável; um coeso mundo orquestrado por leis gravitacionais, balanças invisíveis que harmonizam os desencontros do conjunto. Tudo segue bem até que surja a personificação do desencontro querendo expor sua voz em meio ao conjunto, querendo fazer de sua atonalidade a motriz de sua inserção no circuito, expondo o desconforto, o espanto, a dúvida, a distância dos bons tons que dão prosseguimento às inalteráveis leis de Newton (ou Smith).

O catador, esse ser que, de fora, aborda o circuito; que não tem muito bem assentadas as noções do que são ou para que servem as coisas; esse feixe de pulsões descontextualizadas, que cobra sua inserção sincopada no mundo; que faz as coisas mais corriqueiras e dadas como certas soluçarem, gaguejarem e tremerem em hesitante descompasso. Isto não é um passo, é sua inflexão. Escrevo sobre a sua escrita, sobre o seu circuito de comunicação, de circulação de bens e pessoas; escrevo como quem adiciona camadas incompreensíveis em sua maquinaria; inserção de peças de outras máquinas em suas engrenagens; curto circuitos; desvios nos trilhos; trans- semiótica; o catador e o circuito. Com seu magnetismo estrangeiro a qualquer legislação vai retirando peças aqui, reagrupando ali, dobrando, torcendo, virando ao avesso, aproveitando somente o que lhe serve para seguir sua trajetória, compondo novos senti(res)dos a partir do roubo e da captura de peças antes bem encaixadas. Compões processos à frankstein, capas de arlequim, remendos de toda parte.

Inimigo do engenheiro e de seu plano totalizante habita a linha de frente na produção do real tecendo as malhas microscópicas de um presente inventado permanentemente. É o encosto dos engenheiros de mundos fabricados em série e, quando enfim incorpora em tais corpos, com a força de sua aparição, fazem eles se contorcerem e falarem línguas estranhas a ponto de apagarem suas bem-comportadas fisionomias em nome de algo inominável. Pós.