O orelhão é um equipamento público de comunicação. Um objeto não-humano, híbrido, obsoleto, contemporâneo, espólio da “modernidade” que sucumbiu. Estático, oculta segredos e seu significante  é explorado em diferentes sistemas de cultura. Em Cuiabá, por exemplo, tem a forma dos animais pantaneiros. Em londres, são caixas vermelhas. Dificilmente vemos alguém usando um.

Então, qual importância se estabelece no objeto em questão: o orelhão – quando o Artista ao subir no dispositivo, na instalação, na máquina, na parafernália urbana, ao subir no objeto exerce um potência oculta até então? O telefone público transforma-se num símbolo, num monumento trazendo muitos significados: comunicação, urbanismo, privacidade, comunidade, governo, leis, Constituição, instituições, direitos, disciplina, sociedade e outros.

O orelhão está ali. Provavelmente, ninguém o vê quando passa olhando no seu celular. Está ali a qualquer hora da paisagem mas não o vemos, muito menos com toda essa simbologia que se apresenta na performance do silencioso artista que dele se apropria por alguns instantes, efêmero, pacífico, se estabelece com seu texto não verbal. O homem sobre a máquina ? Isso não sabemos. Sua presença altera o cotidiano e provoca o acaso dos encontros. Vemos o contraste lamentável que a primeira realidade se distingue da segunda. O policial não poderia derrubá-lo da maneira que fez, o artista já estava descendo. São diferentes leituras e cada uma traz um caráter e visão, representando o mundo que vive.

A Natureza ainda nos esconde 99% do seu sentido, que não alcançamos. A filosofia e a antropologia nos ajudam nessa busca. Tentamos subverter as coincidências da vida para nos sentirmos seguros diante das possibilidades naturais. Criamos taxonomias para tentar organizar, explicar e traduzir. Nosso mundo é traduzido, e vivemos envoltos nessas simbologias que se encontram, se ajustam. Nossa constituição política desconsidera a existência de outros sistemas presentes na ciência. Isola o homem da natureza, coloca-se acima dela e cria uma falsa idéia de centro. Não há centro nos encontros que desenvolvemos durante nossa existência. A arte coincide com a vida e nos explica uma parte do mistério maior.

Falo da arte pura, longe das questões de identidade, autoria ou mercado. A arte como um agente, que busca pacientes desinteressados na estética, que se apropria do repertório contemporâneo e promove diálogos entre diferentes sentidos.