26/04/2012 – quinta-feira

Esta foi a primeira ação nas ruas de Cuiabá. Na esquina das ruas Alexandre de Barros e Projetada – coordenadas -15. 62 41 59 / -56. 05 44 34, bairro Chácara dos Pinheiros. Já observava aquele terreno durante as caminhadas com o cachorro. O conjunto: Uma televisão 21”, obsoleta, despejada em pedaços. Restos também de entulhos entre outros dejetos. Apoiado sobre a tv vemos um suporte para rolos de papel alumínio.  Vemos a TV dividida entre frente e fundo, com a tela oposta ao seu lugar de origem. Metades deslocadas, um giro, contrapostas, sujas de lama. Um arranjo, em linha, pedras de tijolos demolidos fazem a conexão invertida que mostra um rastro da ação humana. O apoio da verticalidade pretendida pelos objetos também apresenta um diálogo hierárquico. A tela de vidro, apoiada mais alta, pretende uma dominação sobre si mesma e seu rosto olha sua outra parte. Um olhar para dentro, talvez recusando o olhar para fora, para sua nova condição de existência naquele terreno. Não faltam rastros precedentes à ação mas esta nova forma dividida, cortada,  mostra um fragmento, um corte no tempo do local cotidiano de passagem, este novo arranjo, um traço humano, ético e até irônico. Na voz aos objetos, uma representação banal, dividida, corrompida na produção de novo significado.

A obra, nesta nova forma de existência, foi rapidamente desmontada, em poucos dias, por outras ações humanas. Diante da reinterferência efêmera do outro, que talvez sinta-se provocado no agenciamento com o objeto, reintervimos novamente no início de maio de 2012, que agora denominamos “TV1”. Aparecem novos elementos ampliando a escala da composição. Permanecem a televisão e as pedras de demolição enquanto surgem grandes perfis de pvc branco criando duas fortes massas diagonais em grossas linhas. Este novo funcionamento reaparece mais potente, uma réplica ainda mais instigante. A composição anterior foi agrupada, agora nuclear, age impondo um centro ou um ponto hierárquico bem manifestado. O objeto produtor de imagens torna-se a imagem na paisagem. Percebe-se que o chão está raspado por alguma máquina.  As peças deste jogo efêmero são materiais sem significações econômicas aparentes, desprezadas em algum canto. Ninguém as quer e então ficam ali ao sabor das intempéries sul americanas. Uma televisão cortada, um telefone sem-fio imundo e quebrado, uma parte de antena e surgem pedaços de tempo em históricos reunidos na conformação semiótica do espaço, reinventa-se um terreno qualquer na cidade apenas mudando as peças de lugar. Estranhas massas visuais urbanas.



Um arranjo particularmente humano porque nenhuma máquina conseguiria arrumar exatamente desta maneira que se apresenta. Humano e não humanos. Um jogo relacional, mutante, dentro do seu tempo quando a produção de significados é trazida pelo interlocutor. Uma captura seguida de transformação também no campo social. As histórias gravadas naqueles objetos existindo na espera de novos acontecimentos éticos. Apreende-se certa aparência de tempo reunindo passado e futuro no presente no poder de reunião da imagem.